quarta-feira, dezembro 12, 2007

Lágrimas de crocodilo


Perverso animal. Lacrimejam os seus olhos quando sente o último fôlego da sua vítima…
Pacientemente espera que um ser indefeso e incauto se abeire da margem para saciar a sua sede e, posteriormente, numa emboscada rápida e calculada ataca. Mata silenciosamente arrastando a presa para dentro de água sabendo que, por mais que se debata, acabará por sucumbir… Sapiência dos séculos…
Ulteriormente, com sofreguidão, engole de um trago. Dizem os entendidos da matéria que ao não mastigar, abre a mandíbula com tal vontade que a glândula lacrimal é comprimida e, logo, brotam lágrimas…
Dinossauro da nossa era, sobreviveu à catástrofe que extinguiu todos os seus contemporâneos. Milhares de anos e continua num pranto…
Visão romântica das existências… Chora porque mata. Mata por sobrevivência. Sobrevive mas está só porque já não pertence a este mundo… Mata porque está desamparado.
A pulsão de ceifar vidas é mais forte do que ele… Fá-lo! Porque tem de ser! Porque não lhe deixaram alternativa!
Chora pérfida besta … Um dia, logo, logo, os teus dias de assassino chegarão ao seu fim. Viveste uma vida a semear miséria mas espera-te um desfecho glorioso!

Esquizofrenia II


Incrível! Tomo uma decisão e escassas horas depois eu própria a contrario… Estúpida, Estúpida, Estúpida… Repugnante… Ser vil… Mas que merda é esta? Andamos a brincar? Passa-se e depois liga-me? Maldita hora que a conheci… Pensas tu, com a razão do teu lado… Arrependi-me logo pela manhã do que tinha escrito e, especialmente, da forma como tinha escrito. A questão prende-se com a ambiguidade de sentimentos. A luta interna entre o que quero e o que sei estar certo. Afastei-me. Eu sei. Não por mim mas por ti. E pensas tu que a decisão é tua… Talvez… Mas assusta-me o teres pena de mim e receio da minha reacção ao me afastares. Sentimentos que já me prenderam a pessoas e que repudio.
Se, algum dia, fizer o indizível não será por ti, pelo Zé, pelo Artur, pela Tereza, pela Patrícia, pela Diana, pela Sónia, pelo Diogo, pela Catarina, pela Tânia, pelo Marco, pelo Sandro…
Estes, alguns dos que me magoaram, dos que não me compreenderam, apenas me ajudaram a ver que não pertenço. Nunca pertencerei. Não nesta sociedade, neste país, neste continente, neste mundo. A decisão é minha de querer continuar a sentir-me quebrada cada vez que destruo relações ou de acabar com isto duma vez por todas. A escolha é MINHA!!!
O anjo que me prende. A que tem o meu amor por completo. O ser divino que me trouxe ao mundo e que, com todas as suas forças, me mantém cá compreenderá. Assim que a vida lhe trouxer a alegria que tanto espera, sei que se prenderá à vida, novamente, desta feita não por mim. Aí terei a minha oportunidade….
Perdoa-me se te magoei. Não o faço em consciência mas por raiva de mim. Como me disseste uma vez noutro contexto, espelho as minhas “deficiências” nos outros. Desta vez, quem me estava mais próximo eras tu.
Reitero que és perfeito e que as falhas são minhas. Não tenho de esperar dos outros o que dou. A escolha é deles. Compreendo isso mas não consigo aceitar. Por isso me tinha habituado a não dar para depois não ter de esperar. Apanhaste-me desprevenida. Apaixonei-me. Foi tudo ao ar. Paredes, entulho, pó… Ruiu… Agora há que começar a construir, quanto antes, para garantir a sobrevivência sozinha….

Adieu


Rasga-se-me o peito. Noite interminável minada de espectros e assombrações de vidas passadas.
Como posso sentir que perdi algo que nunca possuí? As costas arqueiam com o cansaço das decisões que me obrigo a tomar por ser aquilo que sou. O peito aperta e o coração salta batidas. Dói muito. Custa respirar e turva-se a visão. Concentração nenhuma…
Sou dele. Mesmo não querendo essa responsabilidade, conquistou-me. Durante algum tempo, quanto não sei, continuarei a ser dele. Enquanto me povoar os pensamentos, sonhos e devaneios diurnos não serei de mais ninguém. Isto da conquista não morre de um dia para o outro.
Tem razão quando diz que nunca sairemos da vida um do outro porque deixamos a nossa marca…
A dor do fim de algo que nunca foi….
Foi bom. Fui feliz. Mesmo na ilusão, fui realmente feliz durante algum tempo. Podia ter sido muito maior, muito mais significativo, uma partilha total.
Mas não foi. Ficou aquém daquilo que preciso e ensejo. Esta minha necessidade é absurdamente grande e, provavelmente, inatingível. Eu sei. Um dia resignar-me-ei. Mas hoje não! Impõe-se que seja feliz. Um pouco… Só uma migalha…
Amo-te. Sempre amarei.
Adieu

terça-feira, dezembro 11, 2007

Cigarro


Hábito de outra vida este de fumar um cigarro depois do prazer. Passar de um vício oral par outro. Fixação oral? Sem dúvida. Nada melhor que sabores para nos transportarem para outras dimensões. O olfacto e o paladar são, por excelência, os sentidos do sexo. Da côrte, da sedução, do “flirt”. Aquele perfume que nos tira do sério. O sabor da boca e corpo do outro. Só de pensar salivo como um cão pavloviano. Comparação feia… Mas verdadeira… Feromonas libertadas que nos entram nas narinas que absorvemos de uma só vez… Resposta química imediata. O cérebro processa e enceta as glândulas salivares. As pupilas gustativas incham com a expectativa do sabor bom que aí vem…
Desejo de comer… Consumir… Degustar… Saborear… Provar…
Hum!!!! Prazer…
Como quando levo o cigarro aos lábios e chupo. Travo e por momentos tenho-o dentro de mim. Para depois o expelir novamente. Nunca ficará comigo... Mas sei que, naquele instante, foi meu… Mau hábito... Prejudicial para a saúde... Mas dá tanto, tanto, prazer....

segunda-feira, dezembro 10, 2007

Fogo-fátuo


Começo, lentamente, a entender-te melhor.
Leio-te e estás espelhado nas personagens que retratas. Ficção? Não existe.
Inveja. Muita. De não conseguires sentir como nós mulheres sentimos.
Compreendes, sentes empatia, desejavas sentir assim, mas não consegues.
A plenitude com que nos damos, incondicionalmente e sem reservas, só transpões para o nível físico, característica masculina por excelência.
Por isso escreves o que nós sentimos. O que a nós nos dói.
Nunca serás meu, pois não? Nunca foste de ninguém… Não sabes o que é isto de amar incondicionalmente.
Não te deixaram. Roubaram-te essa capacidade quando ela florescia…
Um paradoxo! Completo. Sentas-te a analisa os outros, a guiá-los por caminhos que tu nunca tiveste a coragem de seguir.
“Não conheço o suficiente de ti para te amar”… O que falta conhecer se já me viste chorar?
O meu passado? O meu presente? Os meus sonhos? Esses nunca conhecerás. O que sou agora, já sabes. Nunca to escondi.
“Quando gostamos realmente de alguém, compreendemos, perdoámos e aceitamos como são….” Bonita retórica. Pena não ser verdade.
Não! Não quando gostamos mais! Quando sofremos mais! Quando vivemos mais!
Pérolas a porcos… Disseste uma vez num contexto só teu… Se sabes o que é estar do lado de quem Ama e não é Amado, compreendes que aceitar menos que Tudo é doloroso.
Também, da maneira que começou, acabará.
Uma Fénix que renasceu das chamas. Pena que tenha sido de um Fogo-fátuo.

quinta-feira, dezembro 06, 2007

Inconsciência


Dizia o Freud que o inconsciente era um “lugar psíquico” especial. Estudando, primordialmente os sonhos para basear esta sua tese, chegou à conclusão que não existe noção temporal e que os conteúdos podem ter sido, em tempos, conscientes ou podem ser genuinamente inconscientes.
Certo… Com algum esforço e prática até conseguimos deslindar alguns dos “conteúdos” dos nossos devaneios nocturnos…
E quando agimos conscientemente de forma inconsciente? Frase paradoxal? Contradição? De todo!
Dizem da inconsciência ser característica da juventude… Pois eu reitero que não! Estereótipos dão azo a xenofobia e intolerância. Cada caso é um caso, cada ser é um ser, cada vivência é uma vivência e, sobrepondo-se a isso, cada momento é um momento numa qualquer existência.
Perdoam-se, continuadamente, actos inconscientes conscientes por serem praticados em circunstâncias determinantes. Os instantes que tecem as memórias… O perder do auto-controlo, da Razão, dos pudores, dos complexos, da cabeça…
A fúria… Sentimento que me leva a ultrapassar o limite do racional. De resto, sou hiper controlada. Deixo-me levar escassas vezes pelas “vontades” e os “quereres”. E quando acontece, são fragmentos de tempo e prontamente me “situo”. Como um autómato, começo a fazer “damage control”. Mentalmente equaciono os prós e contras do acto em progressão, comparo à previsão já efectuada antecipadamente e, a partir dum gráfico mental, tiro as minhas conclusões. Imediatamente começo a engrenar soluções e ponho-as em prática.
Tenho 27 anos. Dizem que ainda sou jovem… Se sim, aqui fica um de muitos testemunhos que a juventude não se caracteriza pela inconsciência.

terça-feira, dezembro 04, 2007

Pérolas a Porcos

Falar com paredes… Tentar racionalizar com seres que tirariam do sério até o Padre António Vieira que pôs Santo António a pregar a peixes que, dizem, têm uns meros 3 segundos de memória. Meros? Uma eternidade! Quem me dera essa vastidão de tempo me fosse concedida pelos seres acéfalos que me rodeiam diariamente.
Os que sobejam, os que pensam, deixam-se levar pelo “laisser faire – laisser passer”, digno duma qualquer anarquia (vulgo República das Bananas), e habituam-se a viver neste sítio amorfo, ermo e desprovido de qualquer forma de pensamento.
Tu, que lutaste pela liberdade, diz-me o que é viver numa época em que as ideologias vingavam e havia vontade de mudança. Lutaste para quê? E para quem? Que liberdade é essa que tanto te custou a conquistar que agora parece de somenos importância?
Inveja! De teres vivido num período que a coragem e o não-conformismo imperavam e que se compreendia que as palavras perderiam significado e só restava agir.
Hoje, rodeados de informação numa “aldeia global”, vivemos na maior ignorância e com um extremo desprezo pelo “fazer acontecer”. Se o mundo fosse pautado por este pensamento desde o princípio dos tempos, ainda vivíamos de tanga e a matar animais com uma moca…
Um encolher de ombros… É assim. Sempre foi…
E daí? Não tem de ser!
Baixa-se os braços e vira-se as costas à progressão? E se os Capitães de Abril o tivessem feito? Afinal de contas, por esta ordem de ideias, a ditadura já durava há décadas, custava muito mudar!
E aqueles que têm capacidade, os poucos que mantenho mais perto de mim, ganharam a minha admiração mas vão-na perdendo por serem derrotistas e deixarem-se levar pela mediocridade.
Enfim, pérolas a porcos…

Tesão

Não tenho???
Então que sensação é esta quando te fantasio. Quando nos fantasio… Quando nos imagino num abraço perene. Desnudados e frágeis, damo-nos sem reservas nem pudores… O teu corpo é meu e o meu é teu. O encaixe perfeito. O teu prazer estremece-me e incentiva-me a continuar. Sempre! Numa gradação cada vez maior, o aquecer das nossas peles que roçam com fulgor.
Então que sensação é esta que me desconcerta e me leva a sonhar acordada? Humedecer os lábios preparando-me para os teus beijos mesmo na tua ausência… O corpo prepara-se para te receber tal é a força com que te quero… O eriçar da pele expectante do toque dos teus dedos. Só de imaginar vibro…
Então que sensação “incómoda” é esta que me segue quando te visiono a completar-me? A preencheres o espaço que é teu, só teu! Mereceste-o! Dá-me! Dá-me aquilo que é teu e só aos deuses pertence. O último suspiro de prazer dentro de mim…
Cá para mim, esta sensação é mesmo tesão…

A Partilha


Foi fácil dar-me. Não te via, ouvia ou sentia. Deixei que a fantasia tomasse conta dos meus dedos e dei-me por inteiro. Não custou nada. Não doeu. Não me senti envergonhada dos meus defeitos nem me escondi da minha vontade.
Tu és lindo. Todo. O ser perfeito. Aquele que não se limita a olhar mas que, verdadeiramente, vê!
Só tu… Mais ninguém… Me vê por aquilo que sou e, bem ou mal, me aceita incondicionalmente. Mesmo que te doa, ensinas-me. A ser melhor, a crescer, a viver! Sem medos e sem rodeios impeles-me para a frente. Devagar e com cuidado vais-me empurrando e vou abrindo portas que há muito tinha trancado.
Esta casa fantasma que criei aos poucos ganha vida. Já não é habitada só por espectros. Agora partilham o seu espaço com vidas fervilhantes e de sangue quente.
A sobre lotação do espaço leva-me a querer que, talvez um dia, tenha de libertar os espíritos deste limbo em que os mantenho. O eterno purgatório que os prende.
Vais-me ajudar? Vais ensinar-me a liberar-me das assombrações? Vais fazer de mim uma pessoa? Pararei de deitar tudo a perder? Parará de me doer e consumir?
Não. Isso não. Já mo disseste. A dor veio para ficar e fará sempre parte de mim. Aguenta!
Se houver momentos na minha vil existência em que me liberto, mesmo que seja por momentos, das correntes que arrasto, valerá a pena…
Instantes soltos em que me entrego por completo sem restrições, medos ou complexos…
Ensejos de partilha…

domingo, dezembro 02, 2007

Lábios emprestados


Ando a beijar os lábios de um anjo. Um ser de aura branca e olhos vítreos. Beijo-o por escassez dos lábios que realmente quero provar.
O anjo sabe que os meus beijos não são dele mas de outrem. Mas sendo um ser celestial não se importa e reparte a sua alma comigo.
Terno e meigo, partilhamos momentos só nossos, longe de olhares inquisidores mas não são dele os lábios que me beijam a alma por inteiro. Essa boca, a que me eleva e guia ao céu, não é a de um anjo mas a de um cometa. Como tal, raras são as vezes que tenho a fortuna de o ver, parar a sua órbita e, juntos, tornarmo-nos corpos celestes.
Morfeu é perverso. Quando me permite algum repouso mina-me os sonhos com fantasias divinas em que, também eu sou fenómeno astronómico. Um qualquer pólo oposto do cometa e, obrigados pelas leis da física, unimo-nos numa explosão cósmica que desalinha os planetas e abala o universo.
E o anjo? Tenta com todos os seus poderes imortais levar-me às nuvens mas falha redundantemente o seu objectivo deixando-me apeada enquanto voa novamente para o seu cantinho no paraíso. Sinto o estremecer do seu corpo, o desembrulhar das suas asas, os seus braços à volta da minha cintura e a descolagem suave. Ensaia alar-me e levar-me com ele vezes sem conta, mas depois lê nos meus olhos que pertenço ao cometa e a força do seu abraço desvanece. Voa sozinho, mais uma vez. Talvez para a próxima…
É triste. Um melodrama de um anjo que quer cair para me ter. Guarda as tuas asas meu anjo, enquanto isso, peço os teus lábios emprestados…