quarta-feira, dezembro 19, 2007

Lamento

Palavra que ouvi incessantemente ontem. Não sabem o que fazem; são tolos, parvos, estúpidos, ignorantes… Pois, pois… Sei que nada resta a dizer e que, nesta situação, neste luto, não existe léxico apropriado. Resignação. Total.
Também eu lamento. Igualmente, faltam-me os vocábulos para definir a dor e mágoa que experimento. Não quero verbalizar os pensamentos que me massacram.
E se o meu melhor não for o suficiente? Possivelmente, não me enquadro nos parâmetros daquilo que se espera da minha função… Será que têm razão quando me apelidam de inútil e reiteram que não tenho talento/inteligência/vontade para nada?
Tendo ou não razão, é como me sinto de momento. Falhada e disfuncional.
Para onde quer que me vire falhei. Seja na minha vida pessoal, social e profissional espera-me sempre a mesma sina: o abandono.
Nalgumas situações o boicote advém da minha estupidez inata; Noutras, sobrevém da minha ineficácia natural.
Duma forma ou de outra, o sucesso é parco e distancia-se cada vez mais.
Não se chora sobre leite derramado… Eu choro! E tento salvar algum de forma a ser ainda próprio para consumo. Devia ter tido mais cuidado para não derrubar a garrafa! Desastrada! Não tenho atenção às coisas…
Por ser aquilo que sou, por não conseguir ser melhor, pelos erros que cometo repetidamente, por sentir pena de mim própria, por me odiar e desprezar…
Lamento….

terça-feira, dezembro 18, 2007

Encontros e Desencontros

Respirei fundo e comecei a lê-la. Como já desconfiava, de ficcional só os nomes.
Sinto-me uma voyeur…
Embora já tenham passado séculos, ainda a conheço intimamente e a existência dela está descrita ao pormenor nas folhas do livro…
A necessidade de um desabafo… Ter alguém que a ouça e sinta a mágoa dela. Compreendo-a… Nunca ninguém a tentou entender por inteiro… Eu consegui. Duma forma doentia e ingénua mas captei a sua essência. Talvez por isso tenha tido dificuldade em cortar os laços que tínhamos criado. Talvez por isso me tenha deixado essa responsabilidade.
Mas isso já não interessa. É de somenos importância a vivência passada. Aconteceu. Deixou as marcas e as lições que eram necessárias e passou…
Então porque não consigo esquecer? Porque me dói ainda?
Introspectivamente conclui que não olvidava os episódios dolorosos da minha, ainda, curta vida pois achava que assim não repetiria os mesmos erros…
Possivelmente não gosto de pontas soltas. Ou, então, não quero que fiquem a não gostar de mim. Ninguém sabe mas preocupo-me muito com a opinião que os outros têm de mim. Sempre. Mau hábito este de me definir pelos olhos dos outros… Esperar elogios para me sentir melhor comigo própria. Mesmo que não acredite, por um momento que seja, que se trate da verdade…
Se fosse, não desistiam de mim com tanta facilidade. Acho eu…
Mas, também, que sei eu desta coisa chamada sentimentos? Sei senti-los. Nada mais.
Os sentimentos não têm razão…

segunda-feira, dezembro 17, 2007

Cachopa

Pára de me chamar isso! Dou a mão à palmatória que me comportei como uma. Mas cachopa e miúda são dois adjectivos que têm uma má conotação e carga depreciativa para mim. Não tens de adivinhar, por isso to digo. Histórias de outros tempos. Termos carinhosos… Não os queres usar, tudo bem. Então chama-me pelo meu nome de baptismo.
Toda a vida fui infantilizada por ser ingénua.
Estou a refrear-me. Muito. Os minutos teimam em não passar. A Luz está longe. O labor está fraco. E os sonhos e desejos são muitos.
Tento dar-te o que acho que queres mas não sem prejuízo meu. Sei que me lerás. Aqui. Neste fórum da minha vã existência. Mas até isso planeio destruir.
Poderás pensar que houve distanciamento e que, finalmente, deixei de sentir intensamente. Não sabes que na Natureza nada se ganha, nada se perde, tudo se transforma?
Tão simplesmente mudei o meu objecto de obsessão.
Agora, doentiamente, penso em mim. Na cachopa. Não como quererias que o fizesse mas da única forma que sei.
Auto-flagelo-me. Castigo-me. Puno-me. Abraço todos os momentos ébrios onde sinto, por instantes, uma ilusória liberdade de mim própria. Nada me choca, as palavras não doem e todas as consequências têm absolvição.
Magoem-me! Mil vezes, magoem-me! Destruam-me! Despedacem-me! Destruam-me…
Desde que não seja eu a fazê-lo a mim própria, viverei com isso.
Melodrama de uma cachopa…

A Morte e o Sexo

"A vida dá-nos indicações sob várias formas de que a morte não deveria assustar-nos, pelo contrário, que é agradável. O sono é-nos dado como um protótipo da morte, e lutamos por ele todas as noites, que nos dá o maior esquecimento da vida. Não tememos o esquecimento; desejamo-lo porque nos dá paz. O sexo também nos sugere como será agradável a morte, mas não prestamos atenção. Se pudéssemos morrer duas vezes, então talvez não receássemos a segunda vez. Tal como uma virgem receia a dor causada pela introdução do pénis, mas sente prazer da segunda vez e fica cheia de vontade de sexo e ansiosa por isso, não prestando atenção à insignificância da dor comparada com o prazer que recebe. Por isso só temos uma morte, para que ao percebermos o seu encanto da primeira vez, não nos sentíssemos mais poderosamente atraídos por ela do que pela vida. Deus não seria capaz de nos manter vivos, como não foi capaz de nos manter na inocência, e estaríamos continuamente a lutar por nos sucidarmos. O sexo é-nos dado como uma substituição para a morte múltipla. Depois de nos restabelecermos de uma morte doce, ficamos cheios de vontade de a experimentar outra vez. "

Alexander Puschkine, in 'Diário Secreto'

Sistema binário

0,1,0,1,1,0,0,0,1,0… E por aí fora. É a base da programação de qualquer sistema operativo. Com uma infindável conjugação de zeros e uns, faz-se uma inteligência artificial.
Preto e Branco! Sim e Não! Imperativo Categórico e Imperativo Hipotético! Somente isso… Sem triangulações… Sem Asnas… E no entanto, suporta muito “peso”… Toneladas de informações e acções…Basta carregar numa tecla…
Era bom que fossemos assim. Dirias: “que seca!” Nada disso! Não saberíamos a diferença. Não sabemos o que é bom se não tivermos provado o mau, certo?
Falamos de amor e da Fénix que renasce das cinzas… Digo: Mitos… Respondes: Nada mais existe… Certíssimo! Ainda agora falávamos do maior mito de todos: o Amor.
No que me concerne, os sentimentos são lendas. Houve a necessidade de dar nome à nossa “ressonância emocional.” Comportamento gera comportamento. “Emotional Feedback…”
Quem somos nós para nomear algo que não tem nome? Generalizar algo que é tão pessoal e íntimo? Tentar compreender o incompreensível?
Não existe a Verdade Absoluta e, tão pouco, existem “sentimentos nobres”. Dissecados, não são mais que variações das pulsões inatas que desejamos, apaixonadamente, ter mais valor.
Voltaire disse: “Se Deus não existisse, tinha de ser inventado.” O actor Robin Williams supera-o: “Deus é o amigo imaginário do Homem.” Ora…
Se fossemos sistemas binários não tínhamos esta necessidade de nomear, analisar, dissecar…
Afinal de contas, bem vistas as coisas, até somos simples:
Vivo – 1; Morto – 0;

domingo, dezembro 16, 2007

Πάθος

Pathos: Paixão, excesso, catástrofe, passagem, passividade, sofrimento, assujeitamento. Não é um espectáculo como me serve o chapéu? Repara como as palavras estão alinhadas… Uma paixão que leva ao excesso. Dá-se a catástrofe. Passa-se à passividade (onde me encontro) e sofrimento e depois assujeita-se… Ou não…
Vês porque me identifico com a Pathos? E com o Cacofonix? Seja a cantar como ele, ou a ser eu própria, as pessoas afastam-se…
Decidi ignorar-te… sóbria! Que criancice. Tu ignoras-me e eu ignoro-te. Que estupidez tal! Eu não decidi ignorar-te. Simplesmente vou começar a afastar-te da minha vida e suprimir os sentimentos até que nada restará senão o adeus. Sim suprimir. Fazê-los desaparecer não resulta. Já aprendi. Pelo menos comigo. Contigo não sei nem espéculo.
Tu foste uma Fénix… Renasceste das cinzas e começaste tudo de novo. Orgulhas-te disso e com toda a razão. Acto corajoso o de voltar ao mundo. Eu não sou assim. Actos heróicos não são comigo.
Mas, pelo menos demonstrei-te, da pior forma que, destruo mesmo relações. Vês? Não exagerava ou mentia. Faço-o mesmo. Com uma crueldade e frieza que me é inata e que depois me vai destruindo.
Não me chames “P. M.”. Seja para ti, ou qualquer outro colega, o que vou revelar ser, que é o que já te vais apercebendo, é uma bela de uma desilusão. Uma pessoa desinteressante que desiste e que não quer ser ajudada. Sou um caso perdido.
Πάθος...

A saber…

O que mais me custa é a mágoa que inflijo a mim própria… A saber? Deves estar a gozar? Não sabes? Não sentes? Não te magoei? Consequentemente, não me magoei? Não deitei tudo a perder? Comigo, contigo, connosco? Não foste só tu vítima da minha auto destruição. Começo a afastar as pessoas que não quero magoar, magoando-as… Faz sentido, não é? Reconheço o padrão de atitudes de outros tempos.
Movimentos centrípetos e centrífugos… Já não era a primeira vez que me apelidavas de centrípeta… Mas é exactamente isso que sou… Numa espiral vou rodando cada vez mais rápido para o seu centro que é onde quero estar. Onde acaba!
Engraçado que me disseste isso na minha segunda visita...
Seja herança química, problema hormonal, distúrbio de personalidade ou, tão simplesmente, assim mesmo, não me poderão curar nunca.
Não esqueço nada! Pagas-me para não esquecer! Extraordinário… Senti a faca a entrar e sorri. Tentas orientar a conversa para uma relação importante da minha vida que se deteriorou e que queres consertar… Pensas que, talvez, assim consigas ir ajudando. Não compreendes que só consegues odiar quem amas. Os outros são indiferentes.
Atirar da janela… Dizias pensativo… Quase ouvi na tua cabeça a associação comigo. Mas mudei de “modus operandi”, Já não será assim.
Ainda não cheguei lá. Ao ponto de felicidade extrema de me ter decidido. Do alívio de, vou fazê-lo. É uma sensação óptima. Carregada de adrenalina pelo medo e alegria porque nunca mais… NUNCA MAIS!!! Mas estou em preparação. Já afastei uns quantos. A principal, essa nem desconfia, o que encaixa no meu plano maravilhosamente.
Aquilo que te fiz levo comigo. Destruí algo bonito e divertido que me manteve viva umas semanas. Nestas coisas de relações humanas existem factores incontornáveis. Entraste na minha vida com um objectivo. Esse mudou. Passaste a ter dois objectivos. Até que me estava a agradar. Mas os dois objectivos colidiam. Agora queres voltar ao objectivo inicial e não consigo. Destruí o segundo e agora não te consigo ver no primeiro.
Os sentimentos não alteraram. Não te vejo como alguém a quem pago. Vejo-te como objecto do meu desejo.
Incontornável é que, depois do mal feito, já não se volta ao mesmo porque as cicatrizes ficaram. E tudo menos do que aquilo que era, não me interessa.
E tu? Concordas?
A saber…

Asna


Sabes o que é?
Pensando que te referias a mim, a resposta óbvia foi: o feminino de asno?
Sorris com malícia e dizes: Não! Um triangulo! Uma simples forma geométrica que muitas sociedades secretas consideravam ser uma forma nobre. Para os católicos representa a Santíssima Trindade.
Triangular os pensamentos. Sabes o que me pedes? Pensar? Mais ainda? Não quero! Não consigo! Estou cansada!
Mas, invariavelmente, lá fui matutando no conselho…
E… Triangulei…
Ficarias admirado com o meu negrume. Triangulei a minha morte. Descobri novas soluções para morrer sem levar o amor da minha vida comigo. Como se um relâmpago me tivesse atingindo: EUREKA!!!! Como não tinha pensado nisto antes??? Brilhante!
Não vejo, nunca vi, o meu suicídio como um mal que quero fazer aos outros. Quanto muito, um alívio para todos, isso sim. A ideia de que não tenha nascido para viver já me segue há muito. A decisão de se quero ou não viver, não se prende com as pessoas que me rodeiam. Não o faço por ti, por ele, por ela ou pelo outro. Mas por mim.
Sou suficientemente insignificante para que o meu desaparecimento não toque muitas existências. Algumas pessoas, simplesmente, não foram feitas para viver.
A pessoa que mais amo será quem mais sofrerá e, por isso, tenho me aguentado. Mas arranjei uma forma de ninguém sentir que falhou. Lidarão apenas com luto e não culpa.
A minha alma gémea, o Fernando, perder-se-á durante uns tempos mas reencontrar-se-á da melhor maneira.
De resto, umas lágrimas, poucas, uns comentários e depois memórias que se dissiparão.
Estou a ver o mar. Estão 2º. Nem sinto o frio. Já anoiteceu e escrevo com uma luz ténue que resta do por do sol.
Mal vejo o que faço. Paralelismo do que tem sido a minha vida ultimamente. Nem vejo e, tão pouco me importo, com as consequências do que faço. Nada tenho a perder!
Já desisti há muito. Não tem a ver contigo, com serotonina baixa, carga genética, a minha família, os meus amigos, os meus desgostos. Muitos têm pior e ganham mais vontade de viver. Eu sou cobarde e fraca e não quero mais. A escolha é íntima e a mais privada possível.
Olho para a lua em quarto minguante… Olho para o mar… Olho para as réstias de luz que pairam sobre a água. Sinto a areia a escorrer-me entre os dedos… Saudades?
Os mortos não sentem falta.
Provavelmente vão pensar que fui uma asna, mas eu sei que não!

sexta-feira, dezembro 14, 2007

Perfume

Partidas engraçadas que o nosso cérebro nos prega… Estava aqui sentada a “arrumar” a minha cabeça e, inevitavelmente, pensei em ti. Não é que tive a sensação de cheirar o teu perfume? Fisicamente impossível…
O olfacto é um dos sentidos que mais prezo. Daí achar o Süskind um génio. Pessoas, lugares e vivências são-me insinuadas pelas mais variadas fragrâncias… Terra molhada depois de uma chuva ligeira: África; Relva acabada de cortar: o meu pai na minha infância; Madeira a ser cortada na serrilharia da empresa: Sr. Portela; Pão quente: o meu avô; Um bolo a cozer no forno: a minha mãe; Livro antigo: Paris; Uma sala cheia de fumo de cigarro: faculdade; Livro novo em folha: Tantas, mas tantas, histórias…
Um sem fim de aromas que me transportam para fora de mim… Experiência extra-corpórea. Um pequeno, mas só meu, Nirvana. Um instante que me “despego” da minha existência terrena e a alma viaja…
Depois existem aqueles cheiros sem definição que inatamente reconhecemos. O cheiro da casa dos meus pais que me transporta para 9 anos de vida e experiências, memórias, lembranças… A casa da minha avó paterna na aldeia onde cresceu o meu pai tem um aroma que me leva às férias de Verão em miúda. Aprendi a cavar, semear, colher, conviver e amar a bicharada, a ver as horas pelo posicionamento do sol, o que semear de acordo com as luas, a sujar-me, a cair… Coisas de criança. Aprendi o que são urtigas da pior maneira… Descobri que as silvas não são nossas amigas quando me espetei dentro delas com a bicicleta. O conforto que é termos um WC dentro de casa… Como usar um penico a meio da noite… A usar o tanque de lavar a roupa como piscina improvisada… Comer amoras, figos (não comer quando estão quentes do sol!!!), não beber leite directamente da vaca por variados motivos, chupar o caule das flores amarelas que crescem um pouco por todo o lado e que sabem a vinagre…
Pois é, um sentido relegado para segundo plano quando tem tanto para nos oferecer…

quarta-feira, dezembro 12, 2007

Asfixia


Procuro livrar-me de todo o entulho que me cobre. Ouço a confusão que se instalou pelos passos acelerados sobre as tábuas velhas e carcomidas pela idade e maresia. Gritos! Sempre os gritos! Água pela cintura. Os animais da noite debatem-se numa luta ancestral para não ser engolidos pelo líquido mortífero…
Subo as escadas de quatro. A roupa pesa-me sobre o corpo encharcada que está. Desequilibro-me mas agarro-me aos degraus com a pouca força que me resta e elevo-me até às portas. Empurro! Grito! Espeto os dedos pelas aberturas criadas pela torção da madeira na ânsia que alguém os veja e me tire da minha reclusão.
O barco empina de repente, caio no vazio, no negrume e, com um estrondo, bato com as costas no rebordo interior da proa. Ondas de dor injectam-se pelo meu corpo e tudo escurece.
Acordo num sufoco. Tusso. Tento expelir o líquido que afoga os meus pulmões. Tusso… Tusso. Tusso! Água pelo pescoço. Tento debater-me mas o meu corpo não reage. Corpo? Cadáver! Já não existe. Invólucro vazio. Duas prisões! Fado sádico que me desperta para a morte!
Já a bicheza bóia. Companheiros de viagem cujos olhos via na escuridão. Animais nocturnos que me acompanhavam no silêncio…
Sobe… Tapa-me a boca… Inspiro. Sinto a água gelada a entrar-me pelo nariz…
Não importa. Ninguém me penará. Não farei falta a quem nunca me conheceu.
Fecho os olhos. Espero pelo abraço quente do meu eterno amante. Ceifador vem… Tardaste…
Gentilmente agora… Vamos os dois… Leva-me deste sítio… Liberta-me do porão.
Finalmente, contigo, descansarei em paz…