segunda-feira, outubro 20, 2008

Hei-de lá chegar…

Ao entendimento que um dia pensei ter conseguido. Sentia-me bem por pensar-me diferente daquilo que fui em tempos. Não cair nas mesmas armadilhas e enjeitar dar ouvidos aquelas vozes que nos levam às escolhas que nos magoam e, consequentemente, os outros.

Precipito-me. Defeito que já me trouxe tantos dissabores… Por vezes, recuso-me a ouvir a razão e deixo-me levar pelos conselhos e racionalizações dos demais pensando-me incapaz de decidir sozinha. Erro duma forma ou de outra. Seja por decisão minha ou levada pela opinião dos que amo, falho redondamente.

Dizem que sou jovem. Que me faltam muitos anos para aprender a viver… A idade não se mede em anos mas na intensidade com que se vive aqueles que já por nós passaram. Além disso, não sei se me resta muito tempo para descobrir ou não. Ninguém sabe a própria data de expiração. Mesmo os moribundos não têm hora marcada. A alguns resta esperar que o dia chegue na esperança que, numa possível segunda hipótese, a fortuna seja mais favorável.Outros vivem alheios desta nossa certeza que somos um grão numa imensa tempestade de areia.

Poucos entendem ao que me refiro quando me auto intitulo de “alma velha”. Também não será aqui que passarei a explicar a importância desta minha definição.Apenas sei que o sou e que estou cansada. De viver, viver, viver e sentir que desaprendo a cada dia que passa. Mudam as premissas constantemente e falta-me a capacidade e vontade de continuar a batalhar contra uma corrente que parece arrastar todos à minha volta comigo. Uma onda que me varre sem aviso levando comigo aqueles que amo.

Sou imatura, ingénua e, até, ignorante em tanta coisa. Mas noutros aspectos sei demasiado para algum dia conseguir viver em paz comigo. A única triste conclusão que consegui tirar de praticamente três décadas a remar contra a maré…

Resiliência? Nenhuma. Vontade de continuar? Não por mim. Curiosidade? Só se for para ver quanto mais posso aguentar sem perder a cabeça.

Hei-de lá chegar…

domingo, outubro 19, 2008

quarta-feira, outubro 15, 2008

Tempo

Sem dúvida o conceito mais subjectivo da vida de qualquer um de nós. Já dizem os anglo-saxónicos: “ Time flies when you’re having fun” (o tempo voa quando nos estamos a divertir).
Quantas vezes não nos aconteceu estarmos com alguém de quem gostamos e uma hora passar num pestanejar ou num batimento cardíaco. Horas de conversa parecerem milésimos de segundo e que tanto, aliás tudo, ficou por dizer…Seis horas a dançar numa discoteca só nos afectar no dia seguinte porque nos doem” as cruzes” e o nosso andar ganha um contorno diferente… Um certo arrastar das pernas estranho….
Por outro lado, por mim falo, nas aulas, por exemplo, olhava para o relógio tantas vezes por hora que não sei como não fiquei com Síndrome de Movimentos Repetidos no pulso esquerdo. Completamente alheia aos bons modos, esquecia-me por completo de onde estava e bocejava alto e bom som como um leão na savana depois duma bela sesta à sombra. Não me conseguindo ver, desconfio que até aquele movimento de desenrolar a língua de dentro da boca fazia…
-Ó Renard, então?! Estou a enfadar-te?
(Sempre vi esta pergunta como retórica. Quer dizer se eu estava a bocejar a resposta já tinha sido dada. Por esta e outras razões, sempre me escusei de responder….)Esta é a expressão que mais vezes ouvi, depois de “Renard cala-te!”, durante os 19 ou 20 anos que estudei… Quase me engasgava ao me aperceber daquele gesto de besta que estava a fazer e ao tentar fechar a boca rapidamente. O que vale é que com a minha personalidade encantadora, grande parte do corpo docente durante a minha vida simpatizou comigo e não fui castigada muitas vezes…
Mas isso sou eu que acho que o conhecimento como algo obrigatório é doentio. Além disso, ser professor é uma vocação. E desses, aqueles que nasceram para contar histórias, tive poucos. Contudo, por me terem prendido a atenção e terem conseguido que me interessasse por aquilo que me estavam a tentar ensinar, estarão sempre tatuados na minha memória.
Quantas vezes deixamos de fazer ou dizer algo por falta de tempo e uma crença inabalável que no futuro o faremos? Depois existe uma curva apertada da qual não estávamos à espera e o futuro acabou ali e fomos tarde demais. Agora utilizo uma condução defensiva na vida. Tento ao máximo dizer às pessoas o que por elas sinto. Tantas vezes que, talvez, me achem estranha ou desequilibrada. Todavia, são mais as situações que me puno por aquilo que não fiz ou disse do que pelo inverso.
Ah, que sorte têm os que acreditam na vida após a morte e na capacidade de comunicarmos com aqueles que já partiram… Mesmo assim aconselho que amem e respeitem as pessoas quando ainda respiram. Depois de mortas não parece carinho mas hipocrisia. A verdade é que temos de aceitar todos como são enquanto cá andamos juntos e não vê-los como santos assim que o seu coração cessa de bater.
O conceito de ter todo o tempo do mundo existe e está certo… Mas para cada um de nós, esse tempo “todo” difere. Podem ser décadas como podem ser anos, meses, e por aí adiante.
Não deixes para amanhã um “gosto de ti” que podes dizer hoje… Porque o tempo, esse, não espera por ninguém.

terça-feira, outubro 14, 2008

Tudo a seu tempo…

Estava a precisar de um apertão urgentemente. Algo que me pusesse as situações e reacções em perspectiva. O entender a importância que aquilo que fazemos e nos fazem tem realmente para a nossa vida.
Não descuro que realmente já fui abaixo por assuntos absolutamente ínfimos aos olhos de outros mas, todavia, importantes para mim… “Por isso é que eu sou eu e não sou tu”, respondo novamente à criança do “Der Himmel Under Berlin”.
Mas crescer é isso mesmo. O auto-conhecimento. Esse é o único que nos pode abrir os horizontes para a preparação dos muitos desafios que se vão atravessando no nosso caminho ao longo do corredor.
Contudo a vida é cruel e o apertão foi com um pouco de força demais. Deixou-me lívida e sem reacção. Apenas a sensação que só podiam estar a brincar comigo:
- Não pode ser! Então mas… Quer dizer… Os outros agem mal mas eu é que…
Algo vai mal com a justiça divina ou o equilíbrio kármico. Acho eu… Não sou uma pessoa por aí além. Não sou santa. Também convenhamos que a vida de Madre Teresa de Calcutá não era bem para mim… Porém, tento ser o melhor que posso. Ás vezes até sou melhor do que devia ser. Sou tomada por papalva e deixada a sentir-me parva.
OK… O que interessa é que consciência com eu me deito e que me permite dormir à noite é a minha. Cada um sabe o que faz e os porquês. Eu de mim sei… Dos outros já não me deixo levar em especulações. Se dormem bem com as suas acções, força nisso! Na certeza que eu já não estarei lá nem como vítima nem como audiência.
O sentimento de não merecermos determinado azar é normal e já fui confrontada demasiadas vezes com ele. O ser humano é um bicho estranho. Temos muitos defeitos… Demasiados… Mas temos igualmente a capacidade de nos habituarmos a tudo. Até aos apertões com que somos presenteados de tempos a tempos.
Calma e estupidez natural impõem-se. As decisões a serem tomadas e as atitudes que advirão da necessidade de me libertar do sufoco que o apertão me poderá provocar virão a seu tempo. Tudo a seu tempo…

domingo, outubro 12, 2008

O corredor

Estoicamente vou aguentando o silêncio que ecoa. Palavras amontoam-se no fundo da garganta e os pensamentos vão criando paredes de entulho em volta da lucidez.
Quando acompanhada não deixo que se instale o mutismo e encho o ar de sons embora saiba que se trata apenas e só de ruído.
Aproveito a audiência para não ficar a sós comigo e todos os momentos de descanso dos meus devaneios são bem-vindos.
Um corredor estreito e infinito, repleto de portas de ambos os lados paralelamente alinhadas, arquiva o passado, o presente e o futuro. Durante uns tempos deixei as portas que me ficam nas costas e fui abrindo as portas que tinha adiante. Atrás de cada nova porta, uma renovada história, sensação, medo ou anseio. Por vezes, mesmo sabendo estarem trancadas, tento forçar as portas além do meu conhecimento na ânsia de responder a perguntas cuja solução permanece obscura.
Agora começa a faltar-me novamente a coragem de querer abrir as portas. Sei de antemão que mesmo não querendo, elas escancare-se-ão para me mostrar aquilo que contêm quer eu queira saber o seu conteúdo, quer não.
Apetece-me sentar-me no corredor com as pernas recolhidas até ao peito. Abraçando-me e com a cabeça nos joelhos, não quero sair do meu lugar. Querer que o tempo pare. Me dê um descanso. Os fantasmas que saem das portas já abertas vagueiam pelo corredor assustando-me e fazendo com que as lágrimas me encham os olhos.
Espectros que pensava já presos no seu tempo voltam para me assombrar e trazendo à lembrança episódios há muito recalcados por baixo do amontoado de papeis e livros que enchem as salas do corredor.
A ambição nunca a tive e a curiosidade que me impelia a abrir as portas esgotou-se. Por vezes parece que aquilo que estou a ver é uma repetição de outras salas, outras vidas que pensava nunca mais ter de enfrentar.
Novos demónios surgem no horizonte e a arrojo escorre com areia por entre os dedos.
Apetece-me voltar ao tempo em que o corredor se mantinha na ignorância abençoada que vem com a inocência que nos define em crianças. Antes da consciência de ser…

domingo, outubro 05, 2008

Aquele Abraço

Passados 15 minutos a olhar para o teclado de olhos enevoados a tentar lembrar-me de todas as sensações que me assolaram no sábado decidi deixar os meus dedos vaguearem pelo teclado e autorizei-os a falarem por mim.

Tanto amor... Mas tanto que pairava à volta daquela mesa. Começou aos poucos. Os peitos relaxaram, as respirações tornaram-se confortáveis, aqueles estranhos, de repente, tornaram-se o autores dos blogues que lemos todos os dias e os rostos tornaram-se familiares como os daqueles que conhecemos há anos...
Os beijos e abraços que tão levianamente deixamos uns aos outros durante dias, semanas, meses e até anos, materializaram-se.
A vergonha mantinha o corpo colado à cadeira e os gestos que tanto me apetecia partilhar ansiavam por tornarem-se reais e palpáveis. A estima que sentia ao olhar em redor era tanta que me fechava a garganta num nó bem apertado. Como o palhaço da ária, o desconforto era superado fazendo rir a audiência.
- Pode ser que assim não percebam a vontade incomensurável que tenho de chorar de alegria, pensava...
Só o gigante olhava para mim percebendo em cada gesto meu, em cada engolir em seco, a felicidade que se espelhava nos meus olhos e me mantinha a boca num sorriso constante...
Mandada a vergonha e compostura para trás das costas, gritei dentro da cabeça, WHY NOT? e desatei a abraçar todos com toda a minha força e energia. Queria que me sentissem. Que sentissem o quanto gosto delas e que as palavras escritas são todas verdadeiras e vindas dentro do âmago daquilo que sou. Do sítio onde guardo os afectos para aqueles que verdadeiramente o merecem. Bem lá no fundo onde ninguém consegue me magoar porque este centro nevrálgico está guardado por amor. Como na ideia que fundou a tribo, quem vier por mal AQUI não entra.

Já li todos os vossos textos e comentários sobre o dia de ontem. Cada uma de vocês tocou-me à sua maneira e como se costuma dizer "estão cá dentro". Aqueles abraços que tanto gosto me deram são a minha forma particular de vos dizer:

"Winter, Spring Summer or Fall
All you got to do is call!
And I'll be there, yes I will
You got a FRIEND!"

Adoro-vos a todas e, naquilo que for preciso, sabem onde estou.

quinta-feira, outubro 02, 2008

Cometa

Para mim este fenómeno astronómico tem um significado diferente e único. É um dos nomes que uso para definir um dos meus amigos mais próximos por achar que, também ele, é um prodígio de rara beleza e único na forma como fica burilado na existência daqueles que têm a honra de se cruzar com ele. Tal como os cometas, por muito tempo que possamos vê-los e admirar a nossa boa fortuna de termos vislumbrado um durante a nossa vida, deixam-nos saudosos e com a sensação que deviam ser eternos.

Que se leia com clareza e sem artifícios literários que me refiro ao autor do texto publicado abaixo: João Lázaro.
Tenho a sorte de ter acesso a estes textos magníficos e, melhor que isso, sou Amiga da pessoa que tece estas palavras mágicas cheias de significado.
Embora exista uma diferença expressiva de idades entre nós, o nosso entendimento é perfeito. Não se pense que se deve a uma maturidade extrema da minha parte. Nada disso. Este entrosamento de personalidades e maneiras de ser/pensar deve-se a um conhecimento profundo e único que o João tem das pessoas independentemente da sua idade, sexo, credo ou classe.
Foi ele que me ensinou o valor de ser humano. Só se nos virmos todos como totalmente humanos e frágeis, somos todos iguais. Mesmo que muitos o queiram negar ou esconder, não há como dar a volta a um facto tão óbvio mas, tantas vezes, esquecido e desprezado.Antes de o ter conhecido tinha vergonha da minha humanidade. De todos os defeitos e, algumas qualidades, que vêm agregadas a esta herança. Agora aceito e, finalmente, já não me vejo como um pária ou alguém que não tem lugar onde quer que esteja. Só assim posso melhorar-me constantemente… Acima de tudo, foi ele que me ajudou a encontrar o meu lugar e isso será uma dívida que terei para com ele até morrer.
Se tivesse de definir o João Lázaro numa palavra diria, sem hesitação, resiliência. Capacidade indelével de poucos e admiráveis seres.

Cada nova conversa traz um novo nível de aprendizagem de factos que ignorava e que me põe a pensar sobre as coisas com perspectivas cada vez mais centrífugas. Amadureci e tornei-me melhor pessoa e tenho a agradecer a um cometa que, espero, manter na minha vida durante uma eternidade tão fugaz e rápida que nos define como humanos.

João: levanto o copo num brinde ao nosso primeiro aniversário de conhecimento. Ainda faltam 40. Tem paciência comigo, sabes que demoro o meu tempo a aprender. Pode ser que daqui a uns 39 anos possas dizer: finalmente entendeu! Mas não desesperes, o Papa pode ser complicado mas um Cardeal…

terça-feira, setembro 30, 2008

ESCREVA-SE O FUTURO EM MAIÚSCULA

que os dias e instantes que aí vêm o merecem e são coisa de todos nós. O presente, esse não existe e mais não é que um artefacto da contemplação do passado.

No meu tempo é que era, dizem os incautos, iludidos que vivem na memória de uma idade que foi, esquecidos que são de viver amanhã, esse instante que se constrói em cada pequeno gesto do quotidiano.

Há dias, cidade fora, passeava-se uma anciã de cabelos de prata, curva dos anos, chita florida a cobrir-lhe o tronco, resplandecente de passado com saia vermelha tingida a sangue, achinelados os pés a pisar uma terra que ainda é sua. Pela mão passeava um daqueles desusados carrinhos de compras prenhe de objectos mil, inúteis e entesourados. Entoava uma ladainha onde se confundiam preces a um deus e humanas imprecações, impiedosa e brutal no seu dizer da zanga contra os demais, justa apreciação que da sua alma fizeram lama. Caminhava e caminhava e caminhava para lugar nenhum, rodopio próprio de quem teme que a inacção antecipe a morte. Fiquei para ali um tempo, desatento das costumadas conversas, deslumbrado por aquela Harpia que visitava a cidade em busca de uma alma que lhe devolvesse essoutra sua há muito perdida.

Em volta havia jovens, muitos, a gozar o sol e a vida como lhes é devido, ruidosos numa felicidade costumeira e que dava ainda mais brilho ao dia. Senti-me ponte e passagem, passado e futuro, ser e transformação, que amanhã não deveria ser mais possível haver gente perdida assim da vida e de si. Senti-me confiante, também, que tenho para mim haver entre as mulheres e homens de amanhã gente capaz do discernimento de recusar a herança de uma sociedade que lhes deixamos, honesta no desejo de uma civilização melhor, mais justa e solidária. Porque quero crer que os jovens de hoje são gente maiúscula e muitas são as vezes em que me surpreendem pelo entendimento do que os rodeia, críticos e intempestivos, com soluções utópicas que os fazem sonhar mas que transformam cada pequeno gesto na saga de um futuro que lhes pertence por direito próprio.


João Lázaro
Psicólogo Clínico Director Artístico do TE-ATO

segunda-feira, setembro 29, 2008