quarta-feira, maio 07, 2008

Morreu a Fantasia

Mas e se eu já te disse que não sou dessas coisas.
E também te disse que apenas tu me levaste a distraidamente sonhar acordada vislumbrando uma consumação platónica.
Os nossos corpos molhados crispando em conjunto enquanto faíscas se libertavam a cada nova investida…
As minhas mãos percorrendo as tuas costas enquanto a tua língua procurava os sulcos do meu corpo…
A cada beijo o rugido das labaredas do desejo de nos consumirmos por inteiro.
Mas essas, as fantasias, já lá vão.
Sucumbiram às responsabilidades e promessas mudas de se ser adulto.
Como tal, adulta, resigno-me ao meu estado de sonhos, apenas e só, nocturnos.
Daqueles que não serão pecaminosos ou de má índole por não sermos nós que os comandamos.
Foi aí, quando me tornei adulta, que morreu a fantasia…

3 comentários:

BC disse...

Não te preocupes renard, há sempre um bocadinho de criança que acaba por ficar sempre dentro de nós, e essa não a podemos nunca deixar fugir!!!

Para ser franca, eu sinto-me tão , tão criança que por vezes até acho estúpido, mas sou assim, o que é que eu hei-de fazer
Beijinhos

Jota disse...

A fantasia só morrerá se acreditarmos que ela já não existe dentro de nós.
Ela é como uma semente, está sempre lá, à espera que lhe dêem atenção, como uma flor. Temos que lhe dar água, luz, falar com ela e desejar que ela cresça, floresça e se torne forte.

Ela só desaparecerá em ti se a enterrares bem fundo, na terra imensa que é o teu esquecimento imposto (e que aumenta em profundidade com o passar do anos), aonde nem a luz ou a água que dá vida conseguem alcançar.

A fantasia de Saint-Exupéry nunca morreu dentro dele, nem mesmo quando o seu corpo abandonou este mundo material. Perdurou e perdurará para além do tempo que foi o seu.
Ele bem nos avisa que temos o hábito de nos entregarmos às nossas preocupações diárias, que nos tornamos adultos para sempre e nos esquecemos da criança que fomos. Talvez se nos libertarmos dos pesos da vida nos sintamos mais leves para fantasiar com ela.

Equivocamo-nos sobre as pessoas e as coisas que nos rodeiam e são esses julgamentos que nos podem levar à solidão. Mas o nosso maior erro é quando nos equivocamos sobre nós próprios e passamos a não saber aquilo que verdadeiramente somos e podemos ser ou fazer.

Eu estou a descobrir aquilo que sou, a libertar minha fantasia que enclausurei dentro de mim, a conhecer o EU único e verdadeiro de que te falei. Não sou ingénuo por ter a certeza absoluta e inexorável de que ele é o que existe de mais verdadeiro dentro do meu ser, por saber que tenho de ser leal para com essa singularidade, a qual descobri estudando-me a mim próprio. Mas fui ingénuo, no passado, por pensar que ele era apenas mais um dos meus EUs produzidos e simulados pelo que me rodeia. Tu não o podes saber, porque só eu o sei, só eu parti à sua descoberta.

O meu EU verdadeiro, que se solta a cada dia que passa, é o gérmen que me dá a força para fantasiar como uma criança… como um adulto… e outra vez como uma criança. Ele faz-me sentir humano, completo… e consciente da minha imperfeição. E é a fantasiar que tentamos corrigir as nossas imperfeições, mesmo sabendo que isso é impossível. Mas cada passo que damos nesse sentido é um algo novo que conhecemos sobre nós.

Todos somos diferentes (e é isso que nos torna belos), pelo que terás que aprender a recuperar a tua fantasia por ti própria e atravessando o teu próprio caminho. Não tenhas medo de acreditar que ela está viva.

Poderás não concordar comigo, mas isso não me interessa, nem é o meu objectivo. Como costumo dizer, “Quid est veritas”, e isso tanto se aplica ao que eu possa dizer a ti, como ao que me possas dizer.

Segue o teu caminho pois chegarás aonde queres, mesmo que não saibas ainda no que ele poderá consistir. És demasiada honesta, inteligente e boa pessoa para eu não achar que descobrirás aquilo que verdadeiramente és.

Um beijo muito grande de um grande amigo teu.
Já estou com saudades de te ver. Temos que nos ver… em Lisboa ou em Leiria… tanto faz.

Um aparte… Quanto ao voltar a comer bife, não será a ler a Bíblia, o Corão ou o Tora que conseguirias encontrar um pretenso caminho espiritual. São obras feitas pelo homem, pelo que muita da sabedoria espiritual que contêm se diluiu nos interesses mesquinhos que aí foram misturados.
E não, não sou católico, muçulmano ou o que quer que seja. O meu sentido de liberdade não me permite cair nas teias das instituições humanas que são as religiões. E os seus dogmas normativos não se encaixam com a minha vontade insaciável de procurar conhecimento e colocar tudo em dúvida. Sou apenas um homem de fé, que acredita num Deus que não pode aprendido… apenas sentido.
Mas não te preocupes, o facto de não sentires o que eu sinto não te torna, a meus olhos, mais ou menos especial que eu. Tola será a pessoa que te disser isso.

Temos mesmo que voltar a comunicar como seres humanos normais, ou seja… dando uso à linda língua e voz que temos, em vez de usar caracteres esquizofrénicos que se transformam em 0s e 1s.

BJokas grandes meu caro Renard.

RENARD disse...

Bem! Meu lindo amigo Jota... É verdade que temos de nos voltar a encontrar! Incrível como no texto expuseste as mais duras e sentidas dúvidas da existência.
Quanto ao "post" em questão, a minha capacidade de fanatsiar não morreu... Morreu, sim, uma fantasia. Uma somente. Uma que me assolava há meses mas que agora se trata de uma bonita lembrança duma parte engraçada e diferente da minha vida.

Pobre de mim se perdesse a minha capacidade de fantasiar. Imaginar-me outra pessoa com outra vida daqui a uns anos. Seria, sem dúvida, o meu fim anunciado.

Beijo Gigantesco