domingo, junho 08, 2008

A instintiva dor de amar

Batalho longas horas contra mim mesma. Quero me forçar a querer algo que, pelos vistos, não quero. Dizem que ponho barreiras à partida por uma qualquer pré-concepção de perfeição que não existe. Por vacilar entre a possibilidade de terem razão e o meu íntimo que me diz o contrário, ando num reviravolta sentimental que finda os meus dias com os lábios a saber a sal.
O que não entendem é nada tem a ver com perfeição… Mas encontrar aquela imperfeição toda… Aquela! A que por ser tão imperfeita, a nós nos parece irrepreensível. Amar é isso mesmo! Ver as imperfeições do amado apenas como características deliciosas e nunca, mas nunca, como defeitos. Os que amamos não tem defeitos. Jamais! Têm é um feitio especial.
Se ao menos o coração não acelerasse… Se ao menos as gotas de suor não se criassem… Se ao menos as pernas não oscilassem… Se ao menos os olhos não lacrimejassem…Se ao menos o sorriso não abrisse…
Isto tudo num ápice. Num vislumbre ao longe. No engano de pensar que os olhares se cruzaram.
Na esperança que entre a multidão as nossas almas sintam a presença uma da outra. Como um estremecimento num suspiro… Um batimento cardíaco falhado… Um arrepio nas costas… O levantar dos cabelos ao fundo do pescoço…
Podemos nos tentar ludibriar com racionalizações, supressões, distanciamentos, perspectivações, desistências, mentiras e enganos…
Mas a anatomia não mente. O instinto não atraiçoa.
Da mesma forma que o instinto coage involuntariamente a afastar-nos do cão que rosna; impele-nos, também, a querer estar sempre perto de quem desejamos…
Começo agora, pela primeira vez, a não querer sentir isto. A querer que passe porque me incomoda. Porque é um entrave à minha vida. Porque é uma manifestação desnecessária criada para uma relação que jamais será.
Chega! Quero livrar-me disto! Mas da mesma maneira que não pedi para sentir, sei que só cessará quando outro corpo ocupar este espaço…

3 comentários:

Maria do Carmo Cruz disse...

Minha querida Renard, não sei se este é um belo texto de escrita criativa (e julgo que não é) ou isto é um grito de alma. Deixa que esta "velha Avó" te diga umas coisas: primeiro, descreveste muito bem as manifestações físico-fisiológicas do amor. Mas esse mal-estar que parece existir e que te leva a dizer "não quero" significa que esse amor não é Amor. O Amor, mesmo quando nos parece de impossível concretização, mesmo que tenhamos de o trazer escondido até do "outro" dá-nos alegria, um brilho no olhar, uma vontade de sos superarmo-nos para que, se um dia puder acontecer, estejamos no ponto mais alto da nossa perfeição. O Amor nem sequer concebe que haja possibilidade de ser substituído (o que não quer dizer que o não venha a ser, embora a gente não acredite, e afinal, descubramos com espanto, "este sim, é o Amor, que tola fui").
E tu és completa só por ti própria, Renard. Tu tens que existir por, para e em função de ti. Não é obrigatório teres o outro lugar preenchido. Sabes que o Tempo passa? Parece mentira, mas passa. Olha para o teu relógio e vê a inanidade do Tempo a escoar-se, segundo a segundo, irreceperável. Sim, irrecuperável mas curativo. Deixa-te curar. Deixa-te não sofrer. Vai onde te leva o coração mas não vás sozinha com ele, o coração. Leva essa Razão que desponta e fala. Vão os três e encontrarás a Paz de que precisas. É quase um pecado que uma jovem como tu tenha de escrever textos como o deste para se libertar das suas mágoas. T'amo, Renard. E tu é que ensinas o Principezinho o que é a vida. Não o contrário. Com muito carinho, compreensão e Amor, recebe um beijo da Avó Pirueta

Marta disse...

Olá, amar não é fácil...
Às vezes, temos que parar e gritar "basta"...
Porque precisamos de estar bem connosco e se não estivermos, então não conseguimos amar o outro...
Descansa, relaxa...Pensa em ti...
Beijos e abraços
Marta

RENARD disse...

Amar dói. É condição sine qua non do sentimento.
Não quero deixar de amar. Já o fiz uma vez e a dor é muito, mas muito, superior.
A pessoa de quem falo no texto jamais perderá o meu amor. O meu tem essa característica... O de ser perene.
A questão prende-se com a não reciprocidade do sentimento. Isso, conjuntamente com um não acabar de outras razões que tornam uma relação utópica, leva a que este amor seja destrutivo e não construtivo.
Entende Avó?
Amá-lo já foi bom! Já andei de sorriso parvo na cara, qual adolescente apaixonada. Mas como disse, inexoravelmente o tempo passa, e o sentimento tornou-se obsoleto e incomodativo.
Não o sentimento por si mas o seu objectivo.
Vejamos se me consigo explicar...
Jamais deixarei de o amar. Mas este amor "romântico" tem de cessar.
Infelizmente nunca fui muito de me preocupar comigo. Na minha lista de prioridades, o meu bem-estar está lá no fundinho. Sabe porquê? Porque o meu bem-estar está entrosado com o das pessoas que amo. Se elas estiverem bem, eu estou bem.
Agora só falta amar-me a mim...
Mas que grande confusão vai nesta cabeça...

Não obstante, beijinhos a todos!